“Quem tem amor a doar?!”: campanha em Corumbá busca famílias para crianças e adolescentes acolhidos

Em algum lugar de Corumbá ou Ladário ou até do Brasil, pode estar a família que uma criança ou adolescente espera encontrar. Uma família que não procure apenas um bebê, mas esteja disposta a construir uma história, respeitar um passado e, principalmente, oferecer aquilo que toda criança e adolescente tem direito: amor, cuidado e convivência familiar.
É com esse propósito que a 1ª Vara Cível de Corumbá lançou a campanha “Quem tem amor a doar?!”, uma iniciativa para sensibilizar a comunidade sobre a realidade de crianças e adolescentes que vivem em acolhimento institucional e ampliar as possibilidades de adoção e de apadrinhamento afetivo.
A mobilização ganha ainda mais significado neste período em que se destaca a Semana Nacional da Adoção Tardia, momento dedicado à conscientização sobre a adoção de crianças maiores e adolescentes. A iniciativa busca contribuir para a desconstrução de estigmas relacionados à adoção tardia e chamar a atenção para milhares de crianças e adolescentes que, por diferentes razões, permanecem por mais tempo nos serviços de acolhimento.
Atualmente, 45 crianças e adolescentes residem em unidades de acolhimento nos municípios de Corumbá e Ladário. Desse total, oito estão em condições para adoção, porém apresentam perfis que fogem do padrão mais procurado pelos pretendentes, tradicionalmente concentrado em crianças pequenas, especialmente na primeira infância.
São crianças e adolescentes como José, 6 anos, risonho e alegre; Antônio, 9 anos, companheiro e corajoso; Aninha, 10 anos, bailarina; João, 11 anos, craque da bola; Marcos, 12 anos, nosso futuro escritor; Juan, 17 anos, nosso comunicador social; Higor, 13 anos, afetuoso, introspectivo e desejoso de uma família em todas as configurações; e Carol, 13 anos, adolescente alegre e carinhosa.
Um novo olhar
A adoção costuma ser associada ao desejo de receber um bebê em casa. Mas a realidade da infância e da adolescência acolhidas mostra que existem muitas outras histórias passíveis de um encontro, um abraço, um carinho, cuja reciprocidade é uma dádiva a todos os envolvidos.
Para o magistrado Maurício Miglioranzi, da comarca de Corumbá, é necessário aproximar a sociedade dessa realidade. A intenção, segundo ele, é levar à comunidade o conhecimento sobre essas histórias para que crianças e adolescentes não venham a crescer no acolhimento institucional, privados da possibilidade de construir uma convivência familiar.
“Para que perguntas como ‘para quem vou mostrar minha nota’, ‘quem vai me abraçar quando eu tiver um pesadelo’ ou ‘posso escolher o almoço de domingo’ não fiquem sem resposta, a adesão da comunidade local é fundamental”, declara o magistrado.
“A maternidade e a paternidade são desejos que podem nascer de diferentes formas. As condições humanas de cada indivíduo não diminuem seu valor. Pelo contrário: são justamente as características e histórias de cada pessoa que tornam cada criança e adolescente único e especial”, complementa Maurício Miglioranzi.
Nesse sentido, a Justiça busca sensibilizar interessados para a adoção destes pequenos corumbaenses e ladarenses, para que tenham a oportunidade de desenvolver-se no seio de uma família.
A Semana Nacional da Adoção Tardia reforça justamente essa necessidade de ampliar o olhar sobre a adoção. Mais do que encontrar uma criança que corresponda ao perfil idealizado pelos pretendentes, trata-se de permitir que diferentes crianças e adolescentes tenham a oportunidade de encontrar uma família disposta a acolher sua história e construir novos vínculos.
Amor que transforma
Na adoção, não é somente a criança que ganha uma família. Também ganham as mães e os pais que se abrem para uma nova história e descobrem, na convivência, uma forma de amor capaz de transformar a vida de todos os envolvidos.
Outra oportunidade é o “apadrinhamento afetivo”, uma possibilidade de criação de vínculos e de experiências positivas na vida de crianças e adolescentes acolhidos, sem que haja a adoção. É a antiga figura do “padrinho” mesmo, com a possibilidade de convivência que engrandece a todos.
Para quem deseja adotar ou apadrinhar, o primeiro passo é buscar o Fórum da Comarca, onde o Núcleo Psicossocial o receberá, avaliará seu perfil e o das crianças e adolescentes que se enquadrem. O funcionamento é das 12 até as 18 horas. Também é possível entrar em contato pelos telefones 67 3234-4513 / 67 3234-4518, ambos os números possuem WhatsApp.
Preparação para adoção
Os interessados em adotar poderão participar do curso “Preparação à Adoção: Nasce uma Família”, formação voltada aos pretendentes e destinada a prepará-los para o exercício responsável da parentalidade adotiva.
A Escola Judicial do Estado de Mato Grosso do Sul (Ejud-MS), em parceria com a Coordenadoria da Infância e da Juventude do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, realizará a formação entre 1º de outubro e 30 de novembro.
As inscrições estarão abertas de 16 a 27 de setembro no site da Ejud-MS.
O curso será realizado totalmente a distância, com oito turmas e participação de magistrados e servidores do Poder Judiciário de Mato Grosso do Sul como formadores e tutores.
Durante o curso, os pretendentes terão a oportunidade de refletir sobre as diversas dimensões envolvidas na construção de uma família por adoção, incluindo aspectos emocionais, sociais e jurídicos.
A formação terá duração de 60 dias e será dividida em sete módulos, com videoaulas, materiais de leitura, atividades interativas, fóruns de discussão e questionários avaliativos.
Convivência familiar é direito
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece a convivência familiar como um direito fundamental de crianças e adolescentes. Por isso, a adoção não deve ser compreendida apenas como um procedimento jurídico, mas como uma possibilidade de garantir proteção, pertencimento e vínculos afetivos.
Na adoção tardia, a criança ou o adolescente já possui uma trajetória, lembranças, vínculos e experiências que precisam ser respeitados. Por isso, o processo exige dos pretendentes disponibilidade para conhecer essa história, compreender necessidades específicas e construir, gradualmente, uma nova história em conjunto.
A campanha “Quem tem amor a doar?!” é, acima de tudo, um convite a olhar para a adoção sem os filtros dos estereótipos. Uma criança maior, um adolescente, uma criança com deficiência ou alguém com dificuldades de aprendizagem também pode ser filho ou filha de alguém, amar, criar vínculos, sonhar e transformar uma família.
Em Corumbá, oito crianças e adolescentes aguardam uma oportunidade de construir novos capítulos de suas vidas. E talvez a pergunta mais importante não seja “qual criança eu gostaria de adotar?”, mas “que criança ou adolescente pode encontrar em mim a família que tanto espera?”
*Informações e imagem Secretaria de Comunicação do TJ/MS



